sexta-feira, 26 de novembro de 2010

tanto faz para o que caminho

 o vazio atolado de palavras
tem um silêncio sonoro
que ocupa os surdos.

atolados de um vazio
as vontades
absorvem a sonoridade
de um vulcão adormecido
e zonzeiam palavras

uma mera combinação de palavras
retalha um conteúdo sonante
que cega.

cega e surda
o que sobram são sílabas mudas
preenchidas de línguas
de aspereza necessária
para acordar o seu útero.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

bom dia...



não durmo. pra quê?

acordei no sudeste
pra dormir no centro de alguma coisa
referendável. um pouco de pelos pro azul estático.
mais amarelo pro árido ar. ainda respirável.
um beijo amável só pra rimar. hoje te encontro aonde não está.

sábado, 20 de novembro de 2010

criança-me

sonhei.
vazio transparente.
vaso de sete ervas.
no chão entre-lajotas há flores
secas
coloridas
no chão entre-lajotas
as flores

não ligo nada à nada.
nada há nada.
a melodia funde minha cabeça.
e minha cabeça fundi. silêncios.
há melodia.
eu sei -
inventa brincadeiras de ouvir os silêncios,
um som tímido
sua pausa umedece os vãos das minhas palavras.

mas, e,  não sei ar  não sei vãos
onde não há palavras
por qual lógica, método ou rima
que te respiro?

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

um infinito de coisas.



E se eu tivesse aprendido música, ainda na infância,
O que meu ouvido ouviria a mais. Os números são infinitos.
Finita é a melodia. Porque nem sei o que é melodia.
Minha educação musical, oficial, começou aos 15 anos. Quando minha professora de geografia me livrou de um cachorro quente e me levou pra almoçar na casa dela. Um piano enorme na sala. Foi a primeira vez que vi um piano. Ela era professora de música. E passava horas estudando. Seu florentino não, o marido dela, tocava de ouvido.

Desaprendi violão com uns sete ou oito anos. O homem não falava: na garganta um ferro preso.


As notas coloridas, depois, escorriam do ouvido igual fosse ralo de música.


Deve-se ter dom pra aprender música. Igual se fazer poesia. Ou tom?  As melodias e os números são infinitos...

Pensa, em toda manhã que não queremos ver o céu.

O céu é infinito.

A gente é finita.

O mundo também. Mas os números não. E as melodias?

E o amor, acaba infinitamente todo dia e, finitamente recomeça.

Deus organiza a fila: finitos pra cá, infinitos pra lá. Quase um dança. Não, deus não dança. Joga, dados. No liquidificador?


Ele está enjoado de poesia. Engravidou-se dela, é o preso dos primeiros meses.

Ou seria preço? Estamos presos aos primeiros meses de felicidade.

Notas e palavras se combinam e descombinam.

O som do mundo. Tem passarinho, tem rodovia, tem poesia, tem vizinha tagarela, tem criança que corre, tem louco na janela.

Tem céu que não olho. Não quero mais escrever. Quero mais escrever. Quero mais. Porque o de hoje cedo foi pouco.


porque de você
eu não penso nada
 só amo.


porque de você
os por quês

de você a exaustão em ser
me cansa

de você, a poesia,
(...)

de você este abismo que fala
que diz que diz que mostra nos olhos
me estranho. nem imagino o que seja isso
ter um abismo nos olhos.
Já fugi para o jardim. e lá é plano, e no chão lajotas pretas e eu contava-contava, esquecia dos vãos entreelas. Ou nem isso. Ia lá e somente pensava que as horas iriam passar, finitas, e  voltaria pra casa. E as horas infinitas meadeeternam, ou quase isso. O eterno não pode ser quase. É absoluto.

Eu já ouvi falar de olvido absoluto. Seria um ouvido infinito?
Dizem tem músicas que estragam o ouvido. E separam estas aqui estas lá. Estas quose lá, cá.
Mas mão dançar. Ou não? E veja. os movimentos são finitos. E repeti-los doe as juntas. Numa fábrica de instrumentos musicais, violinos. E tocar. E ouvir. E viver doe as juntas.
os sentidos das nossas palavras -, são outros. Tantos. E acordar com você dentro de mim é finito. Igual dança, igual música, igual fábrica de violinos, igual conta, igual números, igual a um infinito de coisas.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010



como sabia que ela viria hoje. e veio.
me roubou o sono
me fez quebrar tudo por aqui.
estranho. o meu choro é de jardim.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

 

30 de novembro de 2009

Capítulo, sete

Certa vez ouviu alguém dizer que o silêncio era sempre paz. era uma meditação onde o vazio de palavras nos levaria até deus. Mas o silêncio dela trazia eco de palavras caladas, não porque não existiam, mas porque não eram ditas. Como andar num cemitério, ali aonde tudo acontecia, o silêncio era feito de um respeito autoritário, que vinha do medo, mas se recriava pelo receio daquilo que não entendia.

O tema da manhã era o silêncio. Ela teria que escrever algo sobre o silêncio. Queria começar com uma frase de efeito: "O silêncio diz mais que mil palavras." Mas isso não era frase de efeito, apagou. Pensou, pensou, pensou...nada. Só pensava no filme que havia visto aquela tarde. Um filme assim, assim, tema batido, mas que toca, assim, assim. "Falar do silêncio". Achou melhor ficar quieta.

Daí, ela se atrapalhou toda e diante do tema fez o inverso. Começou a escrever, ‘barulhentamente’, um texto atrás do outro. Barulho, compulsão. Nem sentiu. Vomitou tudo como quem tem prazo de validade e precisa terminar a vida e entregar a quem de direito tiver o quê, melhor que ela, fazer com o que viver. Estava sentindo dores no estômago. Queria ir embora de mim a qualquer hora, desde que fosse agora, sem muita demora. Na verdade essa ansiedade começou no momento em que ele, não queria falar dele, propôs a ela, pensar durante um ano, é, exatamente um ano, em uma poesia que escreveria. Ela entregaria, no prazo de um ano, 14 de novembro de 2010, uma poesia, que segundo ele, deveria vasculhar no mais profundo dela. Então sentada na cadeira de área, que ficava na cozinha, pensou inquieta, o que sairia dela assim de tão profundo que talvez demorasse um ano? Nossa! Isso a incomodou profundamente. Não teria coisas lá tão profundas dentro dela. Lembrou-se do que ele sempre repetia: não é doçura que vejo em você, é profundezas.
..."Não é força que vejo em você, é coragem; não é inteligência que vejo em você, é sabedoria; não é resignação que vejo em você, é paz; não é saudade, é amor; não raciocínio, é inspiração." Falou isso, ela riu. sorriu."

e dormiu. porque toda vez que a felicidade vinha, a tristeza se erguia. e a lágrima não a esquecia. "É foda", pensou. Era o único xingamento que se permitia.
*eu, você (Do lado de lá)


aí errei a data - mandei 16 de novembro 2010

sem profundismos

ontem quando andava na cidade eu pensei em um poema profundo
era um viaduto. e subindo. e subindo, pensei

sair pra andar na cidade sem rumo é profundo

organizar minha vidinha é profundo
ouvir do meu filho que deus não existe é profundo
dizer ao meu filho que ele existe no meu  amor é profundo
em seguida pendurar roupas no varal e chorar sozinha com medo de ficar sozinha é profundo

viver é tão profundo
tanto que um viaduto tem o tamanho do tempo que a cidade espera dele
para alguém sem rumo
e isso acho que acaba sendo profundo
tem flores amarelinhas cercando as bordas onde vejo o céu
num relance
gosto de olhar de relance pra ver outra coisa
não o que está lá
e isso é profundo
tudo aqui é tão simples
tão triste
tão sozinho
e tão sem sentido
que acho que deva tudo ser profundo
só o que sinto com tudo isso que não é profundo
dura um instante porque no próximo algo mais profundo vai ocupar espaço do algo profundo anterior. e me esquecerei. esquecerei. e tudo se diluirá
o diluído talvez seja profundo.
e te digo mais. não exista nunca pra mim. e isso acabará profundo.
seja alguém que alguém mandou, que seja você mesmo, para que este alguém, você mesmo, não chegue.
traga um menino sempre no bolso. pra ser por você pra mim
me engane que nunca te irei pra canto nenhum
e quem sabe assim acabo de olhar o quanto não sou profunda
porque não consigo ninguém na medida superfície dela
e não seja profundo
eu morro afogada se colocar meus pés neste fio d ' água.
 
aí o felipe foi tão gentil e me mandou uma música e a sugestão de um filme. na verdade de um curta sobre paris....

Hoje eu vi um filme chamdo Paris, Te amo. São várias historinhas feitas por vários direitores. Sobre Paris. Mas o foco principal é o amor, Paris é o pano de fundo, à medida que o amor não é Paris e Paris não é o amor. Lá pra final teve uma história que me fez lembrar de vc. Era uma história de uma mulher dos EUA que foi passar as férias em Paris. Ela era uma pessoa sozinha, não tinha ninguém com quem partilhar nada, mas não era triste. Ela simplesmente estava viva, como ela mesmo diz. Não sei se vou conseguir me expressar bem, mas oq mais me chamou a tenção nela, e que acho que se parece muito com vc, foi o fato de ela se sentir sempre distante de tudo, era como se ela morasse em outro mundo, vivesse em outra realidade. Ela nunca estava onde estava. Eu acho que vc é assim, estrangeira nesse mundo.
 
Beijos! Muito obrigado pelo poema. Adorei!
 
 
felipe. 


anotações do filme: camille claudel.

do amor talhado em mármore. frio. com ventre protegido.
do amor o lixo jogado escadaria abaixo. e os gritos. da arte os pedaços, suplicantes, das estátuas enterrados no frio, na noite, no lugar em que tirou a argila. do gênio a casca, gesso. da mulher a loucura de querer ser perseguida, de ser enterrada. e presa, pra sempre, em obras expostas em salões (...). de ser glória esculpida pela vida nossa toda em material frágil: pele. ser enterrada viva num hospício de mármore.
do mundo ser tese. entrelaçada em ideia. esculpida novamente em ideias. das cartas que viveu, só, poesia.  sua imagem presa na ideia na escultura. sua imagem presa num diagnóstico -, vida.

um trechinho do filme. compartilho com vocês.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

do amor que não fez.

ele esculpiu a dor não as costas da mulher
ele desenhou a tristeza não um céu cinza
ele descreveu a solidão não um abajur cintilando um risco de luz na parede do quarto escuro
ele viveu um sorriso dentro do peito, beijando os seios dela, dentro da lembrança, dentro de tudo que não fez.

ao espaço de uma mão

de tudo que preciso um espaço de uma mão
de tão perto nem me olha
o que não o preciso
uma distância de vento adormece o ouvido
e o sorriso que vejo, cega, com as pontas dos dedos
que vejo com as pontas dos dedos
 alcança com as mãos

quando serve alça com as mãos

e tudo que não:
toca com a mão esculpida, delicada e expressiva, em mármore
que não vejo. mas diz com a mão em mármore esculpida aquilo.  não uso não me serve.
mas esculpida em mármore, diz
o que sente quando não vê. quando não espera.
fica na nuca um desenho quase em desuso, que não vejo, nem espero, nem quero, nem sei, nem posso, nem devo, quase como o sol da manhã.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

violência contra mulher?

video


Semana próxima começa os 16 dias de ativismo por uma vida sem violência (doméstica). este ano o foco é a prevenção. embora seja uma campanha internacional aqui no nosso mundinho o foco será os grupos de mulheres e a prevenção...

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

lentes e dentes

a vida por vezes se demora para olhar do lado
tem cheiro de bueiro no sol quente
do meio  dia
acende  uma flor
e o  prédio das janelas grandes
tem um vazio abrupto
umas árvores desengonçadas
e minha velha ancorada na sarjeta.

e eu.

brincando de verver:

um homem sentado exausto
olhando a menina do outro lado do espaço

e seu tempo demorado.
e sua mentira engomada

ela goma demascar.
ele corpo não-querer
exceto por parte, contradição.

música.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

enxames.

abelhas tecem nuvens
do zumbido no ouvido
ao mel da picada, 
não sem antes beber da
 flor, o furor
do céu pólen.

domingo, 7 de novembro de 2010




o quite
tem aquele anjinho que eu fiz adocicado
que está um pouquinho sujo de tempo
foi uma peça única
nunca mais consegui reproduzir. isso me faz
pensar que não fui eu quem fim.
a pedrinha de cor
que eu não lembro onde achei, sei que foi pra você
e as conchas, fico na dúvida
talvez. não sei.
e aquele tecido por mim, lembra?
um pedaço
um dia quando fui buscar matéria-prima
choveu tanto que fiquei presa
e a noite passou
ainda meu medo. e os bueiros inundaram toda rua
não as águas

quase que fecho as janelas
por tantos ares

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

estreito algum

tem um vão entre palavras
na dúvida
e uma precisão de solda
na razão delas.

por que pra mim
porquê.

as nuvens são amigas
e o chão é só o chão.
e solta eles de uma janela pra você ver?

e a distância e a distância e a distância
tristância de quase
continente
um, dois, três,
e uma folha horizonte
que não junta alaska alaska
em estreito nenhum.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

você vive de morrer de quê?

conexões  na cabeça, absurdas
um cheiro azedo misturado com carne cozida, aqui
misturado não sei o que é o que
falha o esquecimento quando quero entender
de forma absoluta
parece aquela brincadeira

de vendar os olhos pra cheirar frutas:
- maçãs e pêras -
o gosto entrando pelo nariz
e o aroma saltando da língua.

e os olhos vendo
gente num bar de fotografia
- a mão alisa a pele de uma pele branca
as pálpebras tremulam
e verdejam
(eu quero dizer verdeinvejam mas achei que ficou sem forma)
melhor esverdecidos
pós-finados.