quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Ele chegou todo sorridente como de costume. Fazia alguns meses que não se viam. Desde que o seu Inocêncio decidiu que ficaria mais em casa as conversas haviam diminuído e os encontros também. Sua amiga ficou muito feliz com a visita e foi logo convidando ele e sua esposa, pois sabia da paixão de Renati por piano, para um recital que aconteceria em breve na cidade. O Sr. Inocêncio puxando uma cadeira já de pronto disse que não poderiam ir. De uns tempos para cá estavam tristes, os dois, e ele queria conversar sobre algo que aconteceu no dia anterior, o que ficou claro com o tom da sua chegada. Fez as perguntas formais de sempre e começou uma conversa que aparentemente não chegaria a lugar nenhum. Contou dos filhos, netos e da sua senhora. E perguntou do filho, e de um quem sabe namorado que o mesmo torcia para que a jovem amiga encontrasse tanto que era uma pergunta freqüente. Depois falou por um tempo da política local e enfim entrou no assunto principal. Eles eram amigos há uns 5 anos, desde que dividiram a mesma sala no trabalho. As suas conversas eram prazerosas e demoradas. Começou narrando sua ida na tarde do dia anterior a um médico na policlínica. Disse que estava marcada há exatos 2 meses.
- Sabe, dona Dani, há dois meses marquei essa consulta e eu um homem de 78 anos a cada dia que passa, mais sinto, que vocês jovens tem de torcer para não viver tanto. Acompanhe meu raciocínio querida o médico fica no posto por quatro horas, durante esse período ele também atende os ‘pacientes’ do hospital, pois a cada meia hora se retira e vai à sala ao lado. Ontem de todos os que esperavam o atendimento, umas 42 pessoas, 80% eram idosos como eu. Cansado de esperar resolvi reclamar para a atendente, foi então que com um pouco de argumentação ela me contou quem eram os pacientes do hospital e que me passaria na frente dos demais por conta da minha idade. Eu disse a ela que não era necessário, considerando que a maioria ali fazia parte deste grupo, e que gostaria apenas de fazer uma reclamação. Ela sorriu e apontou o telefone da ouvidoria.
- o senhor ficou quanto tempo lá?
- Três horas.
- e quanto tempo durou a consulta?
- um minuto e trinta. Mas o médico era muito bom, tanto que acertou o remédio, disse que o mesmo agiria como um reboco, porque estou com artrose, te contei?
- Não. Me contou que dona Renati estava com artrite.
- Sabe dona Dani eu fiz os cálculos. O médico trabalha 4 horas por dia lá no postinho, se ele atender por 5 minutos cada paciente, serão em média 48 pessoas por dia. Claro que aí você tem pausas contratempos etc... Mas em média imagino que seja isso. Considerando a energia e vitalidade de um rapaz de 35 anos. Mas veja você à atendente me disse que naquele dia estavam agendadas 80 consultas. Lamentável, querida... Não sou dono da verdade. Mas não acha que algo está errado?
Percebendo os olhos do Sr. Inocêncio pela quarta vez encher de água resolveu mudar de assunto.
- Acho. Mas, mas me conta a dona Renati como está? E o piano, ainda toca?
- Não, a dona Renati, quer dizer a Renati anda sem tempo para as coisas que gosta. Além disso, ela sente dores nas mãos.
- Ah... Se quiser retiro os convites para o recital? O que acha?
- Melhor não. Bom, tenho que ir e não quero mais tomar teu tempo. Até logo, querida. Desculpe o desabafo.
- Que isso seu Inocêncio é sempre bom te ouvir falar. Semana que vem o senhor me conta aquela história de quando encontrou o Jânio quadros e de como ficaram amigos? E de como era bom ouvir o português corretíssimo dele. Ou quem sabe aquela sobre o prédio do Dops. Eu contei que conheci a neta do Abreu Sodré? Nossa seu Inocêncio ela me contou coisas interessantes sobre a ditadura e sobre as circunstâncias da morte do pai. Ela é baiana.
- Não diga!!! Nós vivemos numa ditadura travestida de democracia, querida... Então vá lá... me conte...

...Sempre depois das conversas com seu Inocêncio o silêncio tinha cor. E o ânimo tomava conta da casa.

Um comentário:

  1. com certeza, tem alguma coisa errada.
    aliás, muitas.
    poucas são as pessoas que conseguem perceber isso no cotidiano, tão cheio de necessidades, ansiedades, reclamações, falta de tempo pra refletir antes de reclamar...
    esse seu amigo deve ser muito especial!!!!

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eu não sonhei, sonhei.