domingo, 6 de junho de 2010

todo amor que há.

Talvez conseguisse escrever se não fosse o Pedro.
Voz:
Eu só consigo escrever porque há o Pedro.

Café da manhã

Não sei se inventei não sei se vivi.

Passa a panqueca com mel.
Não temos. Nem comemos isso pela manhã.
Mãe, somos, hoje, uma família seriado de tv.
Repetindo:

Mãe, passa os ovos mexidos. Por favor...
Você não existe criança!

O “desenhar palavras” é uma invenção do Pedro.
(que agora está no meu colo ouvindo a leitura de um livro*).

Aí a professora começou a escrever na lousa. Encheu de letrinhas que eu não conhecia. [mudança de escola, tudo novo, segunda série]
Me deu um medo mãe. E saudade da lousa da Rosaline. Dos desenhos. Das aquarelas. E do tricô.
Mas e aí amor?
Aí eu (suspiro) comecei a “desenhar as palavras”...

*clique na senha.

sábado, 5 de junho de 2010

no mais:
boas ideias acabam
em algum projeto do governo -
destes com endereço e tudo, www.qualquercoisa.gov.br
boas ideias acabam
em condecorações com roupa chique e tudo
foi o que aconteceu com uma amiga
a ideia era: "navegar é preciso",
antiga, simples:
alunos lendo poesia e navegando no "ciberespaço"
olha como ela acabou: recebendo prêmio no palácio - que lastima!,

(mas falando em palácios, em títulos...)

quando ideias acabam
normalmente ganham "selos de amigo de alguém"

boas ideias acabam

mas aquelas que são verdadeiramente boas
acabam
em algum livro, livros que não serão lidos -
ou melhor, só serão lidos por alguns. e estes, alguns, ganharão títulos,

e com o tempo só conversarão entre eles,
perdidos em uma língua própria.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

sonhei que mudava as escolhas do pintor
porque limpava os vitrais
porque não limpava os vitrais
a menina muda as cores do quadro
porque sorri
porque não sorri
o dia muda os contornos da pintura
porque é cinza
porque não é cinza
senti -
meu corpo pregado no teu
coração precipício
olhos escarpados -,
pele seda
em contrário espinhos

sorriso borrado de tinta
[uma escolha do pintor]

quinta-feira, 3 de junho de 2010






quero o movimento
memória

que meu corpo esquece de lembrar

corpo,
quero dançar
pra lembrar
o que sou
dançar
pra esquecer
o que sou
ela lia poemas assim:
- escondida -
fazendo o seu próprio caminho
escolhendo livre as palavras
roubando a sequência do poeta
ela trocava as letras quando escrevia
um dia
a transformaram
em uma história infantil
ela ficou feliz -
um feliz pra dentro
infeliz.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Sabe aquelas pessoas
Q
ue respondem tudo.
são positivas –
tiram do lixo, ou da coisa mais insossa
algo luminoso. Bonito. Leve.
Jovem.
recebo correios eletrônicos dando aulas sobre vida.
quer um conselho, não queira ensinar nada.
Então.
Eu olho e vejo sempre sangue
Sou negativa faço mal a crianças –
E não gosto da Florbela Espanca, desculpe.
Eu nunca digo que não gosto. É uma tendência minha gostar de tudo.
Até do sangue. Isto não é receita, mas eu vou te contar algo que me faz muito bem:
Unha mal feita.
Cabelo desarrumado
E roupa fora de moda
- sabe eu gosto de argila. Poxa como eu gosto de mexer na argila. É delicioso
Fiz uma santa outro dia. Tipo nossa senhora sem detalhes, só manto e barro.
E aquarelas. Sempre ficam muito feias, cores muito fortes, e não mostro a ninguém.
É exatamente isso, as aquarelas me libertaram. E é disso que queria falar desde o começo deste texto.

Os remédios. Os comprimidos.
Eu tenho horror a excesso de comprimidos. Não tomo nem quando preciso muito. ,
- somos diferentes:

Eu já me acostumei comigo e você ainda pensa que tem que se livrar da vontade de livrar-se de você.

terça-feira, 1 de junho de 2010

rua de mão dupla

As palavras, sinos
Você me faz chorar

As imagens, signos
Você me faz crer

O pêndulo, esperança
você me faz dançar

- rascunho da infância
me faz síntese -

Não tenha medo
Você me faz amar
tenha medo
você me faz amar

rua de mão dupla, poema
você me faz sonhar